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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cerimônia do Chá


Olá leitoras e leitores! Tão esperada, hoje é dia da continuação do conto
Queda Livre, postado pela primeira vez na primeiríssima edição da minha querida Cerimônia do Chá.

Sem mais delongas, curtam mais um ótimo texto da nossa colaboradora Sayu! E não deixem de conferir outros textos maneiríssimos dela em seu blog
Papel Rasgado.

Queda Livre

Parte 2

Estava escuro. Rachel estendeu as mãos.

Sentiu a escuridão escorrer por entre seus dedos. O breu era palpável, semi-sólido, como uma névoa densa em sua volta. Subitamente, a cortina negra se abriu ao seu redor.

Rachel se viu no topo de um edifício, observando os carros e as pessoas lá embaixo, ao longe. Muito longe. Estava alto, e apesar de nunca ter sido acometida de qualquer fobia de altura, achou que ia cair para trás com aquela visão.

Por outro lado... Uma voz em seu ouvido lhe dizia: “Pule, vamos. Liberte-se.”

Aquilo a fez se sentir estranha. Como se estivesse ansiosa para pular, ansiosa pela liberdade do vôo derradeiro. Uma risada macabra soou em seu ouvido.

“Pule, como eu pulei. E morra sem conseguir aplacar seu desespero... Como eu morri!”

Rachel virou-se, se deparando com um rosto desfigurado, olhos injetados de sangue. Foi empurrada para o vazio...


***


A jovem policial acordou gritando em sua cama. O teto de seu quarto a fez perceber que ainda estava ali, viva, e não caindo de um edifício. Porém, o sonho tinha sido extremamente real.

Seu coração batia descompassado.

- Preciso de café... – ela murmurou consigo mesma, afastando os cobertores.

O mesmo pesadelo a atacava novamente.


***


- Hey, Rach – James cumprimentou a parceira ao vê-la chegar na delegacia. – Você parece péssima. Passou a noite acordada?

- Quem dera – A policial disse, sem emoção. Sentou-se à sua mesa e começou a mexer em papéis distraidamente, esperando esquecer seu pesadelo.

- Já estou com o relatório do legista.

Rachel suspirou. O caso do elevador lhe perturbava e lhe intrigava ao mesmo tempo.

- Que rápido.

Nesse momento, o telefone na mesa de James toca, e ele atende. Sua expressão facial muda.

- Certo. Estamos a caminho.

- O que houve? – Rachel pergunta.

- Suicídio coletivo. – James responde, pegando o casaco e se retirando, com Rachel logo atrás.


***


- O que está acontecendo com as pessoas essa semana? – A policial exclamou, olhando para a massa sangrenta embaixo de plástico preto.

Vários curiosos se amontoavam em volta da fita amarela, e James olhava um dos corpos mais de perto. Rachel não queria chegar perto deles, o que era estranho para sua profissão, em que estava acostumada a lidar com esse tipo de coisa. Ela sentia algo muito sinistro ali.

- São todas mulheres – Ele concluiu, baixando o plástico. – Devem ter se atirado do último andar, pelo estado do corpo. Interessante...

- O que pode ser interessante em uma situação dessas, James?

- Lembra muito o corpo que encontramos no elevador ontem, apesar de ser uma situação completamente diferente.

- Certo... Vou coletar depoimentos – Rachel disse, querendo se livrar da visão do pesadelo que novamente a atormentava.

Ela foi até uma mulher que estava sentada em uma ambulância, levemente histérica. Parecia que tinha acabado de tomar um calmante.

- Senhora...

A mulher virou a cabeça rapidamente, parecendo mortalmente assustada.

- Eu disse pra elas não pularem!

- Acalme-se, senhora. Conte-me o que aconteceu, com calma.

- Foi a sombra! A sombra as matou... A sombra queria suas almas para si!

Rachel olhou para o médico ao lado. Ele deu de ombros, como se dissesse que nada podia fazer. Já tinha aplicado um calmante na mulher, mas parecia não estar fazendo muito efeito. Subitamente, ela começou a gritar, histérica.

- Eu sinto! Ela está sobre nós! EU A VEJO EM VOCÊ!

Dois médicos precisaram segurar a mulher enlouquecida para aplicar um sedativo, enquanto Rachel observava, transtornada. Havia algo de sinistro ali, ela tinha certeza. Seus sonhos a alertaram disso desde o início.

Continua na próxima cerimônia do chá!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cerimônia do Chá


Olá leitoras e leitores! Hoje é o tão esperado dia (pelo menos pra mim!) do lançamento da primeira coluna desse meu novo querido espaço aqui! Resolvi nomeá-la de cerimônia do chá pois consistirá sempre em participação de convidados, postando contos, resenhas e tudo o mais que der vontade!

E a primeiríssima participação especial é de Luiza "Sayu" Melki, dona do blog Papel Rasgado. Confira o blog dela! Eu recomendo!!

Sem mais delongas, segue aí o conto dela!


Queda Livre

Parte 1

Pressionou o botão distraidamente, contando o dinheiro que estava na carteira. Após se convencer de que tinha o que precisava, percebeu que o elevador ainda não tinha chegado. Apertou o botão repetidamente, e nem sinal.
"Vou te contar, esse zelador nunca cuida dessa porcaria!", ela pensou, remoendo problemas passados com o zelador do prédio onde morava. Frequentemente discutia com o homem, o que se provava inútil, uma vez que o coitado sequer falava sua língua.
Assim que a mulher virou-se para usar a escada, ouviu um barulhinho de sino. A porta do elevador se abria. Aliviada por não ter que descer os degraus intermináveis, ela entrou e esperou a porta se fechar, conferindo o horário no relógio.
Estava marcando 33 horas e 33 minutos. Aquilo era absurdo, era um relógio novo! Deu umas batidinhas no vidro, esperando que funcionasse. Nesse momento, o elevador deu um tranco.
Assustada, apoiou-se nas paredes, enquanto as luzes falhavam. Um barulho arrastado indicou que os freios estavam prestes a se soltar, e a mulher assustada ficou completamente no escuro.
A última coisa que ela ouviu foi seu próprio grito de horror, misturado à uma risada macabra....

~x~


Rachel era viciada em café. Tomava o seu latte com creme ao se dirigir para a próxima cena de crime, um prédio simples, agora com uma fita amarela agourenta na porta. Atravessou-a, cumprimentando alguns colegas policiais ao passar, até encontrar seu parceiro.
James, um policial jovem como ela, esperava pela parceira no pequeno saguão do prédio. Alguns bombeiros estavam lá, além de um homem com uniforme de zelador, que balbuciava coisas em espanhol.
- O que temos hoje, Jimmy?
- Te esperei para fazer as honras - James abriu caminho até a escada, que levava ao subsolo do prédio. Os bombeiros os seguiram, enquanto se aproximavam do poço do elevador.
Havia apenas destroços e metal retorcido no local.
- Quantos andares esse prédio tem?
- Cinco. - James recebeu um olhar incrédulo de Rachel.
- Impossível. Essa coisa parece que caiu mais de dez andares.
- Eu sei.
Um bombeiro finalmente conseguiu separar o metal retorcido, e com algum esforço, a porta amassada foi arrancada. Quando a luz das lanternas alcançou o interior do elevador destruído, todos os presentes reprimiram um grito de surpresa.
- Válgame Dios! - O zelador exclamou, fazendo o sinal da cruz.
O corpo da vítima estava praticamente cravado no chão, ensanguentado e irreconhecível. Haviam vários rasgos na pele, como se as artérias tivessem explodido por dentro. Havia sangue em toda parte.
Após um momento para se recompor, Rachel se agachou ao lado do corpo, colocando luvas. Mexeu no bolso da vítima com um lápis, retirando a carteira e dando a James.
- Mary Smith. 43 anos, solteira... Não era doadora de órgãos.
- E teria algum órgão pra doar? - Rachel falou, um pouco transtornada. Ela lidava com pessoas mortas diariamente, mas nunca tinha visto aquilo antes. - Isso é impossível. Os ferimentos são completamente inconsistentes com uma queda de elevador.
James não respondeu. Rachel olhou para seu parceiro, que estava tão intrigado e surpreso quanto ela. A jovem policial suspirou.
- Porque essas coisas sempre sobram pra gente?


Continua na próxima cerimônia do chá!